quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A ENTREVISTA


Falava ao telefone, dava para ouvi-lo além da porta de vidro. Vociferava como se discordando de alguém do outro lado da linha. A campainha da porta principal soou duas vezes antes dele desligar, o que fez apondo abruptamente o fone na base. A demora não levou mais que um minuto para que o homem fosse atender.Quando ele abriu a porta, à sua frente estava uma jovem mulher. Melhor dizendo; uma menina maquiada de mulher. Vestia um tailleur marinho, sapatos de verniz com salto Luiz XV que a fazia mais alta e mais velha. Ela achava que precisava parecer assim para impressionar na questão da altura, talvez por pensar que ser alta era sinônimo de adulta. Da blusa de voil bege decotada, uma leve abertura, provocada por uma nesga, dobra natural do modelo, que permitia ver frações dos pequenos seios, firmes, com aquele frescor normal da tenra idade, pousados num colo perfumado de pele alva e aveludada.Antes que dissessem alguma coisa um ao outro; o que seria normal entre desconhecidos, por exemplo: um simples cumprimento de recepção; um “bom dia” ou, “como vai”, ou “que deseja”. Mas não, os dois ficaram ali, em pé na porta, olhando-se profundamente, absortos por alguns segundos antes de quaisquer outras palavras.O telefone tocou novamente. Assustaram-se como se despertados de uma viagem em outra dimensão.Ele correu até a escrivaninha, mas deixando a porta aberta. Também com ela plantada na soleira, não poderia fechá-la mesmo, a não ser que a deixasse lá fora com a porta no nariz. Isso não faria mesmo.Atendeu a ligação, mas atento aos movimentos dela. Olhando em direção da moça através da porta de vidro refratário que separava o seu gabinete da ante-sala, e a sala de recepção, acenou, gesticulou com a mão, e pediu para que ela entrasse e sentasse. O que ela fez sem cerimônia. Sentou-se numa Recamier Capitonê estofada de veludo grená, cruzou as pernas elegantemente, torneadas e sensuais, valorizadas por meias finas preta suavemente rendadas.Ele a olhou sobre os ombros tampou o fone com uma das mãos, baixou o tom da voz, e pediu para que ela o aguardasse uns minutos mais até que concluísse o atendimento. Ela concordou sacudindo a cabeça afirmativamente.Enquanto o esperava percorria com o olhar tudo a sua volta, fazendo uma expedição aos detalhes do local. Apesar das instalações serem modernas, o mobiliário de estilo clássico, impressionava o brilho pelo excelente estado de conservação; mesas com pés torneados, cadeiras estofadas de veludo, relógio carrilhão, abajures com bases sendo de imagens de querubins em mármore de Carrara, tudo demonstrando muito bom gosto, mesmo que conflitantes com os acessórios modernos como; computadores com monitores de LCD, telão para vídeo conferências, frigobar de aço inox, e mais outros petrechos para conforto dos usuários no âmbito comercial. Ela estava extasiada com que vira, fazia planos, caso tudo desse certo. Afinal não dependia de ela ser aceita para o serviço. Aliás, mesmo sabendo estar habilitada para qualquer função, não fazia preferência de cargo. Apesar de nova na idade, parecia ter bastante experiência ou treinamento qualificado. Ali, naquele átimo da espera ela arrumava os pensamentos preparando-se para as ações a fim de agradar o seu entrevistador.Ele olhava-a com encantamento. Ela já havia percebido, demonstrando ser também experiente em sedução. Mulher do tipo independente, disposta de querer predeterminado.Para ele, só um estranho sentir, pois era um homem maduro, vivido, descompromissado e acostumado a entrevistar muitas mulheres; profissionais ou não, novas, velhas, e de várias classes sociais. Mas, nesta havia algo que lhe chamava a atenção, uma atração quase que sobrenatural.Terminada a ligação, dirigiu-se à moça. Ela levantou-se. Num gesto rápido, pediu que ela permanecesse sentada e que ficasse a vontade. Puxou uma cadeira, sentou-se frente a ela. Tomou posse de uma pequena prancheta, presa nela, uma pequena ficha e duas folhas de papel pautado. Sem olhá-la, perguntou-lhe o nome, quem havia feito a indicação do escritório dele... Isto é; o profissionalismo havia tomado conta da situação depois do espasmo emocional acontecido com os dois naquele encontro inesperado. Com a mesma seriedade ela atendeu-o. Abriu a bolsa, pegou o cartão da pessoa que a tinha indicado. Era um amigo dele.Com respostas precisas, foi respondendo as perguntas formuladas. Enquanto transcorria a entrevista, notava-se um semblante de satisfação em ambos. Arguida sobre sua qualificação profissional, ela fez demorar alguns segundos, e mesmo assim não o satisfez com a resposta. Ao invés, ela esticou o braço e entregou-lhe um envelope branco grande. Detalhe; suavemente perfumado. Era o Currículo. Ele pegou-o e disse para surpresa dela, que guardaria para análise posterior, o que queria mesmo de imediato era passar logo para as informações sobre as tarefas pertinentes as atividades do seu escritório.Adiantar-se assim antes dela ser dada como aprovada da entrevista, era um procedimento totalmente equivocado. Mas procedeu dessa forma. Afinal era o dono do negócio. E isso como se sabe, é fundamental para o fim de qualquer entrevista.Antes da resposta, torceu o tronco para o lado esquerdo e pôs a prancheta em cima da mesa, mas ficou com uma das duas folhas na mão, e em silêncio, leu atentamente suas anotações.Antes do final da leitura, ainda com a cabeça baixa, olhou-a por baixo das sobrancelhas, deu um ligeiro sorriso, pegou a segunda folha, e após um suspiro, sacou do bolso único da camisa branca de linho, sua caneta tinteiro de madrepérola com pena de ouro, e rubricou-as. Fez uma leve pausa e informou-a da aprovação para o cargo. Deu-lhes os parabéns, e agradeceu por ela ter vindo. Continuaram sentados, e já numa conversa informal, confessou que tinha entrevistado mais de dez candidatas naquele dia, algumas até com mais experiência de trabalho, mas não com os conhecimentos gerais e a desenvoltura dela, isso era preponderantemente importante para o sucesso da escolha. Precisava de alguém com liderança, e boa aparência sim, mas que ela tinha ultrapassado as suas expectativas. Porque afinal, no convívio diário, para lidar com ele eram necessários alguns predicados acima dos normais.Mas uma vez ela surpreendeu-o. Perguntou por onde ele queria que ela começasse.Ele sorriu. Repousou a mão no queixo, olhou-a, e sorriu novamente, e perguntou onde ela gostaria de almoçar. Com a experiência abrangente dela, respondeu-lhe que; para ela, para não quebrar-lhe a rotina, seria importante ser onde ele estava acostumado a sentir-se bem. Nada mais falou, nem ele. Que ligou para o manobrista, pedindo que trouxesse o carro urgente. Um sedam preto de luxo, do ano. Saíram do elevador de mãos dadas, entraram no carro, e rumaram para a casa dele. Duas semanas depois, voltaram de um cruzeiro pelo litoral, presente de lua-de-mel, e recomeçaram logo as atividades do; “ELE&ELA Escritório Matrimonial”.Depois do casamento a empresa prosperou por força da propaganda mais que convincente feita com personagens verdadeiros, e com um novo slogan: “Nossa empresa não contrata dublês.

domingo, 4 de janeiro de 2009

...SEGUNDOS NOVOS


...SEGUNDOS NOVOS
Num átimo, o primeiro passo da madrugada do novo ano, e lá estava o homem sentado à beira mar, só, absorto, remoendo os últimos maus acontecimentos do ano findo. Os dele, comum a todos, foram consumados. Pendente apenas um, do corpo. Por ora, a fé e a figa à prova desde já. Dos seus entes a sua volta, dos poucos amigos onde o abraço alcança, e com os outros não tão, mas sentidos próximos como se, passaram sem pendências. Assim soube, motivo suficiente para sobressaírem às tênues rugas de expressão provocadas pelo modesto sorriso.No olhar, uma espécie de beijo muxoxo, alegria distraída, camuflada na brancura da espuma misturada a areia que lhe beijava os pés. Num vai e vem, vinham juntos certa nostalgia de esperança, e os restos das oferendas devolvidas pelo mar trazidas pelas ondas cálidas e calmas de verão. Certo de que estava só, chorou, e o sal das suas lágrimas misturou-se ao mar, e assim, escondeu os vestígios daquele seu momento de emoção.E ali permaneceu ele, sentado à beira mar assistindo de longe toda essa coisa grandiosa que é o adeus do ano velho e a chegada do feliz ano novo. Manifestação contagiante, explosão do povo, euforia, festa que ele não conseguia naquele momento nem absorver, nem dividir plenamente... Os olhos ainda mareados, mas o pensar aguçado. Fulgia no seu rosto o colorido dos fogos de artifícios vindos do céu, saídos do mar, e as perguntas começavam a brotar com o mesmo fulgor:Tantas luzes assim... Será que realmente é para iluminar o ser, como propagam por aí? Ou a abundância de clarão é para cegar-nos das verdades que desfilam frente aos nossos olhos? Estrondos, ecos, estampidos, inimagináveis ruídos... Será para acordar-nos para uma realidade que teimamos não aceitar, ou é para que não escutemos os lamentos daqueles sem voz, ou para abafar os nossos clamores, nossos próprios ais? Será que há outro interesse além do cumprimento ao evento cultural de festejar? Ou há interesses outros com o intuito de propaganda pra si; governos, igrejas, instituições?...No chão, toneladas de garrafas vazias, vestígio incontestável do uso indiscriminado da droga lícita, cujos conteúdos foram consumidos para adormecer a razão, em prol da emoção da contagem regressiva até a transição atingindo milhões de memórias. E dependendo da resistência de cada indivíduo; efeito duradouro em alguns segundos, minutos, horas ou para sempre nos excessos.Os olhos, esses sim, mesmo sonolentos, fixos, testemunhando os fatos, fotografando qual uma lente grande angular todo aquele povo, lá, extasiados, hipnotizados, boquiaberto engolindo ar, esquecendo pelo menos por alguns minutos; das suas doenças, da fome, da guerra, das prisões injustas, do abandono das crianças e idosos... O ano começou, são segundos novos, e nem tudo há de começar cinza como esse pensamento enraizado, havia naquele homem ao menos uma coisa bem vista e colorida para começar... Vestia uma bela camisa de chita, estampada de flores tropicais.Há previsões dos especialistas em clima mundial que 2009 será um ano quentíssimo.Bom!... O tecido é de puro algodão. Portanto; conveniente. Os fogos cessaram. Então o homem levantou-se, destampou sua garrafa, e pelo gargalo mesmo, sorveu de uma vez só mais da metade da sua droga, e com ela, afogou a pouca alegria que tinha, e junto, a tristeza instalada que não resistiu, dormiu com ele na areia.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

ALMA DECADENTE


Casada e dois filhos: uma moça e um rapaz. Bonita, uma beleza comum de mulher, mas que chamava à atenção. Atração essa que eu não saberia explicar em detalhes, pois envolve sentimentos conhecidos por mim, creio no mais comum; tesão mesmo. Talvez para outro olhar masculino ou feminino, que fosse não viesse significar nada de especial como foi para mim.Mulher altiva, que antes dessa profissão qual exerce com dignidade e sabedoria desde que se casou, a de Mãe. Formara-se noutra, mas preferiu dedicar-se totalmente ao lar. Uma condição que para certas mulheres é indiscutivelmente desgastante, intencionalmente impossível e fora qualquer cogitação, cuidar do lar. Parece piada, mas não é. É pura realidade. Em alguns casos chegam ao suicídio. Por favor, sem risos, não é piada. (risos)No caso dessa mulher não as duas atividades. Por que só do lar? Era qualificada profissionalmente em assuntos administrativos e organizacionais para empresas de grande porte. Mulher de visão, além de prendada, aplicava o seu saber com o olhar investido numa grande família, por isso fazia tudo com muito gosto a fim de agradar e progredir no seu intento. Era o que ela queria; uma família. E assim ela fez até bem pouco tempo. Até quando soube das traições do marido, do envolvimento do filho caçula com as drogas, e sua filha; prostituiu-se aos l7 anos, mentia sobre seus relacionamentos, frutos advindos dos seus amigos de classe média alta.Seu castelo ruiu, o pomar cresceu espinhos, as flores secaram, ouvia grunhidos ao invés dos cantares dos pássaros, tudo beirava a loucura. O modo de vestir-se, de ver a vida e de interação, mudou, e radicalmente. Não havia mais uma preocupação demasiada com a filha, já que ela havia se amasiado com um homem de alta posição social desde os seus dezessete anos. Sabe-se dele apenas que é rico, mais velho, e que tem outra mulher, a dúvida, é se é casado.Do estrupício e safado do marido, o que ela sabia era coisa antiga, ficara mal acostumada com suas péssimas atitudes desde quando namorados. Aquela coisa de paixão cega... Só depois de muito tempo é que viu que a vida pregou-lhe uma péssima peça, hoje com arrependimentos incalculáveis.Os filhos debandaram-se, afastaram-se, sem comparecerem até mesmo nos finais de semana. A esta altura já adultos, formados, mas, deformados no caráter, nunca se importaram com o prazer de ser família.Enquanto isso, sem que se notasse de pronto, nem ela mesma, começara a perder todo aquele viço de mulher vibrante e sensual. Vivendo naquela casa quase que solitariamente, e não havendo muito que fazer e para quem fazer, já que o canalha do marido praticamente se ausentara da convivência convencional do dia a dia de um casal, ele chegava todos os dias às altas horas da madrugada.A partir desses episódios danosos para sua alta estima, ela passou a beber voluptuosamente. Um detalhe; ele não bebia, e se fazia superior por essa diferença, o bastante para que passasse a agredi-la verbal e fisicamente. A gota d’água foi quando chegou ao estágio de espancamento. Amigos e parentes tentaram salvá-la várias vezes das garras daquele que se dizia o homem dela. E a paixão dela por esse homem era tão forte que a fazia suportar tudo calada, e não tolerava interferência, e nem o conselho de ninguém.Mas havia alguma coisa no ar. Algo de mais grave estava em curso para acontecer. Sua atitude calada denunciava isso. Pronto, como retaliação ela passou a beber compulsivamente, e convidava seus amigos de copo para festas todos os finais de semana. Era o ambiente que ela sempre desejou casa cheia e festiva. Estava a partir daquele momento se formando uma nova família, esta constituída agora de vagabundas, mendigos, alcoólatras, drogados, e ás altas horas, também por policiais que vinham apenas para achacarem, favorecendo ao local, antes um lar, o status de bordel.Agora era tarde para o ex-marido tomar uma atitude, sim, ex, posso distingui-lo assim, pois não tinha mais voz ativa, em nenhum lugar da casa, sequer no próprio quarto, agora tomado para práticas libidinosas. A multidão alojara-se definitivamente se espalhando pelo chão da sala, dos corredores, e até dentro da banheira. Aliás, eles, os convidados, estavam ficando incomodados com a presença dele, pois reclamava demais. Inconformado com a situação, ameaçou, proclamou em alto e bom som que daria um fim em tudo, poria a casa à venda.Um silêncio sepulcral instalou-se. Olhares espios e nervosos começaram a rodeá-lo. A mulher surge do corredor, travestida ou incorporada... Garrafa de marafo na mão, charuto na boca, baforadas grandes... (gargalhada estridente). Um maltrapilho ajoelhou-se aos pés dela, ela mando levanta-se, ele cochichou alguma coisa. Ainda o silêncio.Ela começa a se aproximar. A gentalha vai abrindo o caminho, ela passa por cima de uns, em outros os pisa até ficar há meio metro, cara a cara, e dá a sentença:- Vai morrer hoje. Aqui você destruiu a primeira família do meu cavalo, e agora está querendo o mesmo com essa nova que ela arranjou... Mas eu não vou deixar (gargalhada debochada). Ordenou que o derrubassem no chão e o imobilizassem. Quebrou a garrafa cravando-lhe o gargalo na garganta e bebeu-lhe todo o sangue.A casa está abandonada há cinqüenta anos. Nada permanece vivo dentro dela. Dizem que é mal assombrada.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

OS SIAMESES

Moravam numa pequena vila localizada numa região que outrora tinha sido zona rural. O bairro ficara populoso demais, pois se rendeu ao progresso devido à expansão industrial. Um plebiscito permitiu a instalação de várias fábricas de capital multinacional, mas o lugar não perdera aquele jeitinho de interior; ainda. Crescia rápido.
Estabeleceu-se um cabedal bom para a população, menos para os moradores mais idosos que desejavam sossego. Ao contrário dos jovens, estes contratados, por salário mínimo, uma fortuna para quem ganhava um décimo na lavoura ou como pedinte nas feiras. Com tanta euforia, tanto os velhos quanto os novos nem sentiram que praticamente o sítio geográfico onde moravam se modificara. O que antes área limítrofe era região inóspita, agora não mais, já havia praticamente se unido à da outra cidade, esta considerada subúrbio emergente, com diversão, bares, comércio farto, grandes avenidas, trânsito caótico e outras mazelas corriqueiras e aceitáveis.
Era lá que Dona Rosália e Sr. Astolfo faziam suas compras todo final de mês. Agora pela facilidade de acesso; todos os sábados. Para subsistência de um casal sem filhos não era muita coisa que precisavam comprar. Suas atenções eram focadas essencialmente para os tecidos, linhas, botões, debruns e passamanarias em geral. Materiais que precisavam estocar para manter o negócio do qual eram artífices. Para o sustento, tinham na própria residência um atelier, uma pequena confecção de roupas, etiqueta Geéle’S. O Sr.Astolfo costurava para os homens e os gays e Dona. Rosália para as mulheres e as lésbicas.
A relação deles com a clientela era uma coisa impressionante. Queridos pelos vizinhos, clientes e fornecedores, que mesmo depois de muitos anos de convivência, e pelo amor que demonstravam ter um pelo outro, não haviam chamado a atenção até mesmo dos amigos mais chegados. Não repararam que Dona Rosália... O seu corpo... Chamava mesmo a atenção era o seu aspecto corporal forte, vamos dizer assim; era possuidora de uma musculatura mais viril, muito mais que o próprio companheiro. Fora dos padrões para uma bela mulher daquela região, rural. Se talvez vivesse numa grande cidade, urbana, não seria notada, as academias de musculação dariam esse trato nela como dá há muitas mulheres e tão bonitas quanto ela.
Realmente, fora todos aqueles músculos, seus traços femininos são surpreendentes. Analisando bem hoje, o Sr. Astolfo era um homem de aparência também forte, porém com traços mais suaves. Intrigava. Porque não tiveram filhos?

Os siameses eram criados pelos dois, mas o gosto pelos felinos não era da Dona Rosália.
O luto ainda não terminou e Celina já dorme com Rosália na cama do casal. Os dois gatos siameses o casal cria-os até hoje em homenagem ao Sr. Astolfo.
Afinal, os dois foram homens muito felizes.

PONTO FIXO

Desde muitos anos vou e volto pela mesma avenida, trajeto obrigatório; de casa para o trabalho, do trabalho para casa.
O comércio que freqüento fica do lado oposto, depois da praça.
Diariamente antes de eu dobrar a rua transversal, na esquina em frente à praça; estática como se fosse uma pintura em tela viva, lá estava ela, sentadinha numa pequena caixa de pinus, destas que acondicionam e transportam frutas.
Ela era só uma menina, uma criança, com cerca de seis, sete anos, não mais. Nas mãos, outra caixa, esta de papelão cheia de balas, guloseima exposta à venda que ela oferecia a quem passasse por ali. Fazia isto somente com um olhar. Olhar cabisbaixo, lacrimoso, eu nem precisava fitar muito para sentir que ela era infeliz. As cores das guloseimas eram muito mais coloridas que de seu velho vestido, de manequim maior do que o seu corpinho, talvez ganho em doação de outra criança maior em tamanho e posses. Eu parava ali todos os dias, nossos olhares cruzavam, ela nada dizia, eu nada perguntava, pensávamos que éramos mudos. Pegava algumas balas e pagava com moedas em valor muito superior que o custo, e seguia o meu caminho. Não era esmola, pensava estar fazendo o meu papel, ajudar, isto é: comprando o que ela vendia, sem me preocupar quem era.
O meu olhar acostumou-se àquele quadro.
O tempo passou. Passou tão rapidamente como passa a areia entre os dedos, e na mesma velocidade, deve ter exaurido a vontade dela em vender balas. Um pouco mais, um véu criou-se entre a imagem e meus olhos. Também não era mais obrigatório eu passar por aquela avenida, mas por contumácia ou força do hábito que tivesse, mas persistia. Numa determinada tarde, meu olhar envelhecido ou viciado, nem percebeu que aquela menina, passara de casulo para libélula, ela já era uma mulher e eu nem notei. Desperto por essa metamorfose... Cumprimentei-a. Estática na mesma esquina ela permanecia. Sua resposta surpreendeu-me:
- Está a fim de um programa tio.
Lamentei não ter feito mais por ela antes.

sábado, 4 de outubro de 2008

O POETA NUNCA ESTÁ SÓ...

A sinfonia, a escultura, a pintura e a poesia. Arte, arte, arte e arte. O homem pensador, mediador das maravilhas, qual o compositor que ao dedilhar o poema eterniza-o na partitura. Nela o maestro lê, e a batuta diz o que fazer, e a melodia evolui na orquestra através das bocas, dos dedos, das mãos, dos pés. Do couro, das cordas, dos metais e das teclas, é o som, é o som.
O poeta não, ele é só, sem fanfarra, e mesmo assim consegue compor, bastando ele estar em sintonia com a sua musa, e ela nele. Isto é abstrato e real ao mesmo tempo. Absorto e só no seu canto. Ele canta, cala, chora e ri. Tem a sinfonia na vitrola, a escultura no pensamento e a pintura no olhar.

O poeta nunca está só, mas ninguém o vê. Para criação... Em suas mãos; apenas uma pena, um lápis, uma caneta ou o teclado. Processo é quase idêntico ao do escultor e do pintor que; quando com a sua modelo retratam o nu, despem-se da rudeza, e vestem-se do que vêem e ou do que sentem.

Mas o poeta, sim, este é um artista, não tem a musa em suas mãos, usa o seu pensamento como uma força centrípeta, e captura para junto de si a imagem dela, aí esculpi e pinta em versos, ela, a musa inspiradora, e não mais cessarão as poesias. Até na sua lápide deixará gravada a sua mensagem de amor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O MAR ESTÁ PRA PEIXE, FELIZ ANO NOVO

Zero hora, três minutos, quinze segundos. Acabara de consultar o meu relógio de pulso no primeiro dia do ano de uma madrugada quente e céu estrelado. Ainda ouviam-se os estrondos dos fogos de artifícios vindo do outro lado da baía, em Copacabana, sons bem próximos a tiros distantes de uma artilharia de obuses. E bem ouvidos daqui, das praias de Niterói, de onde se tem a melhor vista do litoral sul da cidade do Rio de Janeiro.Talvez os únicos contrariados a todo o evidente burburinho fossem somente os ancestrais dos indígenas nos sítios arqueológicos, existentes nesse perímetro da praia, catalogados e já estudados, mas desprotegidos pelo governo. Tive o sentimento que suas almas pairavam sobre suas covas, cavadas nos sambaquis de areia, assistindo a sua última morada sendo profanada.Mas voltando à festa; pois o espetáculo era... Espetacular!
Logo me ambientei, não podia ser diferente, afinal era réveillon, a primeira grande festa do ano.

Desci as escadas do deck, atravessei com dificuldade a areia entre as pessoas, em grupos adorando os orixás, abraçados, casais de lábios colados em longos beijos, até que consegui aproximar-me da água, morna e mansa, deixei que as leves ondas molhassem meus pés, dizem que é bom no primeiro dia do ano. Ali parado, fiquei observando o mar enfeitado por muitas flores brancas entremeadas com amarelas, vermelhas e rosas. Cada cor representando uma direção, agradecimento, um pedido, um desejo. Flores jogadas em oferenda a Grande Mãe D’Água que também agradecida mantinha-as no marulhar das ondas, num efeito misterioso e bonito de se ver.

Subitamente, trazidos por uma onda um pouco mais forte, fui surpreendido saltitando aos meus pés, um enorme cardume. Pequenos peixes prateados davam a ilusão de que a areia estava em movimento. Ajudado pela criançada que fizeram a maior farra, consegui devolve-los todos para o mar, vivos.Instintivamente olhei novamente para o meu relógio, eram cinco e tal. Os minutos e os segundos ficaram fora do meu foco de visão, turvo pelo gás, matéria volátil desprendida do líquido dourado que havia na minha garrafa, e que pendente, jazia clara, translúcida e vazia juntamente com meu braço adormecido.Só ficou a certeza de uma coisa. Dizem que peixe é sinal de fartura, e eles vieram a mim no primeiro dia. Devolvi-os ao habitat porque quero sim, fartura. Mas uma fartura viva, para mim e para todos.


ANTOLOGIA DE CONTOS FANTÁSTICOS -14° Vol.Poema: “O mar está pra peixe, feliz Ano Novo”07/2008 - CBJE