segunda-feira, 8 de setembro de 2008

PAPOS E COISAS DE BOTEQUIM - I - PRIMEIRO GOLE




- É aqui mano Saraiva, chegamos!
- Avenida 28 de setembro, hoje batizada de Boullevar 28 de Setembro, Vila Izabel, o lar doce lar de Noel Rosa, de muitos outros nomes que já se foram.
- Mas hoje temos Martinho, sua filha Mart’nália... – Olha, não vou listar!
- É muita gente boa!
- A Vila é quase um santuário do Samba - Um celeiro para muitos outros poetas e compositores que ainda hão de vir. - Neste local nascem sambas por segundo, bebem-se litros de chope, e cachaça. - Por fim, bebe-se mesmo é de tudo, e muito. - Os entendidos no assunto, dizem que o goró daqui é um combustível inspirador, necessário na criação de uma nova bossa, acabar uma letra, compor mais uma melodia, e também para varar a madrugada só pelo prazer da boemia. - É o oásis dos amantes da boa música, da bebedeira, e dos contempladores das mulheres. - Todas lindas, e bem dotadas, principalmente de bundas.

- Essa coisa das mulheres daqui terem as bundas grandes... - Será que é de tanto rebolar amigo Silveira?
- Talvez seja mano Saraiva... - Talvez seja!
- Mas, vamos adentrar! - Há uma mesinha livre ali no canto.

Entraram e sentaram-se. Estranhamente era a única mesa vazia. Talvez por ela ficar numa quina de parede, próxima ao início do corredor que segue para os mictórios. Não era ali um dos melhores lugares para se ficar. O vai e vem da porta de molas, impregnava o corredor com forte fedor de mijos. Também, com tanto chope servido...

Ficar ali era um pecado mortal para o olfato diante dos aromas emanados dos petiscos deliciosos, tira-gostos, que ainda bem quentes, passavam flutuando sobre as cabeças dos convivas, que eram levados pelos garçãos num vai e vem alucinante, driblando as mesas e cadeiras numa apresentação de equilibrismo fenomenal. Empunhavam numa das mãos duas, três e até quatro bandejas com os referidos petiscos. Iguarias pra nenhum bom degustador botar defeito. Na outra mão, sustentada pelos cinco dedos, uma única peça, uma bandeja de bom diâmetro, feita de aço polido com dúzias de copos tulipa, suados, cheios de chope dourado, enfeitados cada um com uma espessa camada de espuma cremosa e alva.

Pode ser muita pretensão, mas esta descrição da bebida, diriam que seria de Drummond. Se ele aqui freqüentasse é claro, mas não, ele era muito conservador.

Passou-se uns poucos minutos, e sem combinarem, acenaram e chamaram um atendente para a mesa, em alta voz e uníssona.

- Um garçom aqui, por favor!- Se não gritar não vem. Disse o anfitrião.No meio da multidão sob aquele burburinho, um garçom, acenou de volta:
- Já estou indo!
Em passos curtos e ligeiros, condição mínima para dar atendimento a todos os seus clientes, aproxima-se um paraibinha atarracado, cabelo grisalho, vestindo o habitual na sua função; jaqueta branca, calça preta e uma gravatinha borboleta pequena, bem de acordo com a sua estatura. Destacava-se dos demais exatamente por ser baixinho. Era o Severino. Já perto da mesa, apontou o dedo em direção dos recém chegados e sapecou:
- Já pediram?
Simultaneamente, jogou sobre o ombro o pano de limpeza, sacou do bolso o talonário, arrancou a tampa da esferográfica com os dentes. E...
- Ainda não! – respondeu a dupla.
- Vão querer o que?
- Peça Silveira! – Você já é conhecido da casa.
- Virino (apelido dele) eu e o meu amigo chegamos aqui mais sedentos do que esfomeados.
– Então pra começar, descole dois brancos, zero grau e na pressão. Uma porção de provolone, outra de azeitonas gregas e duas caipirinhas com pouco açúcar...
- Traga as caipirinhas primeiro!
- Só se for agora patrão! – Vou pedir a cozinha pra caprichar, numa deferência toda especial por vocês terem prestigiado, em particular esta minha mesinha.
Passou ligeiramente um pano na mesa, e saiu ele, rodopiando entre os móveis, equilibrando a bandeja. E aproveitando o caminho de volta para recolher das mesas os restos, os cinzeiros cheios de guimbas, copos e pratos usados, sumindo por trás do balcão em direção à cozinha.
Não se passaram dez minutos, e o Virino voltou. Pouco antes ele já tinha trazido as caipirinhas, deixou na mesa o que eles haviam pedido. E num breve cumprimento desejou:
- Bons apetites senhores... – Qualquer coisa, é só me chamar. - Divirtam-se!
Não tinha ele se afastado, e os copos de caipirinha já estavam abaixo da metade da dose. Eta sede. Virino não estava errado quando desejou que eles se divertissem.
Ao lado do balcão, uma movimentação chamava a atenção. Já havia uma mesa redonda arrumada com toalha branca, cinzeiros e copos emborcados. Os esperados iam chegando e sentando-se em volta da mesa. Eram cinco homens, cada um trazia na mão ou no ombro, bolsas; umas pequenas, duas bem grandes e outras nem tanto, agacharam-se, e abrindo-as rapidamente, foram aparecendo; cavaquinhos, violão, pandeiro, e outros instrumentos de percussão para uma perfeita batucada.
O mistério foi desvendado. Chegara o Grupo de Pagode. A tarde ia ser longa.

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